E o que é um nome? Para um músico, pode ser um som; para um artista plástico, uma cor, uma forma, uma textura; para as pessoas em geral costuma ser uma palavra, embora talvez se precise ser um poeta para realmente entender o que seja uma palavra. Ou uma Hellen Keller. Nascida cega, surda e muda, sua educação foi a princípio negligenciada. Contava já seus sete anos quando teve a oportunidade de aprender o que é uma palavra. A professora, Ann Sullivan , oferece o precioso relato:
“Hoje cedo, enquanto se lavava, ela quis saber o nome correspondente a ‘água’. Quando quer saber o nome de alguma coisa, aponta para essa coisa e dá umas palmadinhas na minha mão. Soletrei ‘água’ e não pensei mais no assunto até depois do café… Mais tarde, fomos até a casa da bomba, e fiz que Hellen segurasse sua caneca debaixo da bica, enquanto eu bombeava. Ao jorrar a água fria, enchendo a caneca, escrevi ‘á-g-u-a’ na mão aberta de Hellen. A palavra, que se juntava à sensação de água fria que lhe escorria pela mão, pareceu sobressaltá-la. Deixou cair a caneca e quedou como que paralisada. Nova luz iluminou-lhe o rosto. Soletrou ‘água’ varias vezes”.

Esta descrição pode ser vista segundo dois vértices complementares, seguindo as ideias de Bion. O primeiro, mais dinâmico, focaliza o momento em que os estímulos mentais relativos às sensações táteis da água e dos sinais que a designavam, ligados entre si mas dispersos na mente, reuniram-se aí subitamente a outras conjunções e todas, nesse instante, passaram a pertencer à mesma ordem de fatos. Emergiu assim a concepção de relacionamento entre representação e coisa representada, uma relação que se passa não ao nível do concreto (coisa) mas do simbólico (não coisa); não ao nível do particular mas do universal. Em outros termos, a concepção de NOME, com sua característica de “princípio”, com sua relação com a “não-coisa”, podendo ser aplicado na ausência, na inexistência, na dimensão temporal.

A representação se passa, pois, em dois níveis. No nível de consenso (grupal), ela tem a ver com o código linguístico e permite a troca de informações entre pessoas. Embora tendamos a ver uma língua como algo cristalizado em dicionários e gramáticas, ela não é estática nem intemporal, mas viva e suscetível a mudanças, inclusive à possibilidade de “morrer”, como o latim. Há palavras, por exemplo, que caem em desuso, como “dandi” ou “glamour”, e também há aquelas que perdem seu valor. Num tempo em que se “limpa o nome” com procedimentos burocráticos remunerados, parece estranho recordar que houve épocas em que se “lavava a honra” com sangue.

Resolver um problema na ausência do objeto do desejo pode ser facilitado recorrendo-se a esse instrumento importante: o NOME da coisa ou fato, não precisando ser necessariamente uma palavra articulada. O nome é uma representação da coisa, e portanto difere da coisa mesma. Esse NOME pode ser uma hipótese definitória, ou seja, uma demarcação provisória para ser reformulada com o decorrer da experiência. Pode ser também um fato selecionado.

“O fato selecionado, quer dizer, o elemento que dá coerência aos objetos da posição esquizo-paranóide e inicia assim a posição depressiva, o faz em virtude de seu caráter de pertinência a um número de diferentes planos dedutivos em seu ponto de interseção”. (BION)

Talvez fosse melhor chamá-lo “fato emergente”: uma pista – ou conhecimento – que, ao invés de ser acrescentado externamente, emerge da situação com base em suas próprias características intrínsecas. Como o lendário fio de ARIADNE, esteve presente desde o começo do problema, invisível embora. A conjuntura total, as condições de sua presença, suas relações com a solução conferem-lhe a importância vital que a caracteriza.

Encontrar o fato selecionado supõe tolerar a situação frustradora que ele resolveria, e manter a atenção relaxada à espera que os dados dispersos revelem seu sentido. Sem esta paciência é frequente que se procure forjar saídas apressadas. Sua aparição se reveste da emoção vitoriosa e que teria sido experimentada, suponho, por Teseu, ao se ver novamente fora do labirinto, vencedor do Minotauro-Objeto Mau. Saída do labirinto que pode simbolizar a passagem do caos à síntese, da dispersão de estímulos ao sentido de EP a D.

“A intromissão de um fato selecionado é acompanhada de uma emoção como a que se experimenta ao observar uma perspectiva reversível. O processo total depende de uma atenção relaxada. Esta é a matriz para a abstração e identificação do fato selecionado” (Bion). Esse fato selecionado, essa solução salvadora não é mágica nem instantânea: esteve ali a cada passo, a cada medo, a cada dor. Abstraído de cada experiência. Construído, trabalhado, conquistado. E um fato selecionado geralmente floresce em forma de nome.

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