“O vínculo entre a intolerância à frustração e o desenvolvimento do pensamento é fundamental para a compreensão do pensamento e seus transtornos”, disse Bion. Mas uma série de estudos mostra uma relação entre dois modos de raciocínio e o estilo individual de reagir a frustrações.

As denominações para as formas de pensar variam na bibliografia. As mais frequentemente citadas são ‘criatividade’ e ‘inteligência’, que, no entanto, não refletem unanimidade em seu uso. O critério de diferenciação, por exemplo, pode enfatizar o processo, o produto ou a pessoa. O mais comumente trabalhado é a situação específica de solução de problema e a eliminação ou não de respostas criativas.

Uma tentativa de delimitar o conceito para maior precisão foi apresentada por J. P. GUILFORD estabelecendo os termos, hoje correntes, ‘convergência’, e ‘divergência’. Em seu livro “The Nature of Human Intelligence” de 1971, pudemos encontrar as definições formais de ambos os conceitos. A produção divergente consiste na “geração de dada informação onde a ênfase recai sobre a variedade e quantidade de saída da mesma fonte, envolvendo provavelmente transferência” (p. 213). A produção convergente significa o processo de “chegar a conclusões necessárias” (p.215).

Comparando os dois tipos de raciocínio, GUILFORD acrescenta ainda alguns esclarecimentos. “A especificação de regras ‘necessárias’ exclui produção divergente. Porque no cotidiano raramente estamos tirando conclusões necessárias mas estamos não obstante perpetuamente tirando conclusões, a categoria de produção divergente possibilita descrever o evento típico de ir de informação a informação. Podemos dizer que na produção divergente geramos as possibilidades lógicas de dada informação, enquanto na produção convergente geramos necessidades lógicas” (p. 215).

Esse autor assinala em outro artigo (Some misconceptions regarding measurement of creative talents, 1971) que ‘criatividade’, como ‘inteligência’, é composta de numerosas habilidades com objetivos diferentes segundo a ocasião. E que, portanto, sua avaliação deve ser complexa e múltipla, especialmente quando se referir a manifestações no cotidiano.

J. G. NICHOLS examina o conceito de criatividade como um traço normalmente distribuído. Argumenta que para aceitarmos essa proposição seria necessário conseguir provas de que “as características que distinguem os criadores eminentes de pessoas menos eminentes possam ser positivamente relacionadas em amostras não selecionadas” – o que ainda não foi tentado.

A sugestão em comum desse dois autores, segundo nos parece, é reservar o termo ‘criatividade’ a um processo que se avalia pelas qualidades de exceção da obra a que dá origem. E utilizar o conceito mais modesto de ‘divergência’ para o pensamento que se avalia por fluência e originalidade, simplesmente, podendo ser pesquisado em qualquer pessoa.

Apesar da diversificação conceitual e justamente levando-a em conta é interessante notar que as pesquisas que arrolamos, focalizadas em variáveis de personalidade como este trabalho, têm conseguido chegar a resultados coerentes entre si.

(Texto excerto da dissertação de mestrado “Estilos De Pensamento E De Tolerância À Frustração”, 1978, USP, Instituto de Psicologia, de Maria Emília Lino da Silva, p. 20-21)

Free WordPress Themes, Free Android Games