Porque, no meu entender, seus textos marcam uma mudança de paradigma na chamada Escola Inglesa.

Antes dele a Psicanálise era newtoniana: o espaço era o espaço e o tempo era o tempo, mensurados de maneiras distintas. Essa, digamos, concretude, corriqueira em disciplinas incipientes, aparece em Freud e a necessidade de pioneiro de mostrar de onde tirava seus conceitos. E se amplifica em Melanie Klein, onde os próprios conceitos parecem de carne e osso. Bion reagiu ao que lhe pareceu estágio primitivo da disciplina e ambicionou torná-la mais científica, o que, no seu entender, significava dar-lhe um caráter matemático com conceitos abstraídos da experiência que pudessem ser pensados em si mesmos. Assim, tomou um conceito básico do kleinismo, o de Posição, sendo a Esquizo-paranóide anterior à Depressão, ambas com características bem marcadas, e o transformou no mais próximo que conseguiu de uma fórmula matemática: o mecanismo (EP↔D), podendo significar, por exemplo, análise e síntese, e assim se referir tanto à experiência emocional quanto ao pensamento, tanto ao mórbido quanto ao científico ou artístico.

No afã de conseguir alçar a Psicanálise a um patamar de maior abstração e cientificidade, ele chegou ao que considero o ponto de inflexão que daria um caráter mais eisteiniano à Psicanálise, chegando à relatividade do tempo-espaço. Sua primeira e abandonada tentativa foi o conceito de protomental, um estágio tão inicial que a experiência ainda não é nem física nem mental, podendo se expressar por um ou outro caminho. Outra contribuição interessante foi considerar o grupo como uma unidade, não interpretando cada participante mas o todo, em que via características mentais próprias ao grupo, onde quem falava era o porta-voz do conjunto de pessoas, incluindo a si próprio. Daí o nome do livro contando suas vivências ter sido nomeado Experiências EM grupo, e não DE ou COM grupos.

Mas seu grande feito, na minha opinião, foi chegar ao O da experiência. Tal signo, ambíguo, pode ser lido como o “oh!” ou como o “0″ da experiência. De qualquer forma se refere àquele momento primordial em que se descobre a experiência e ainda não se decidiu o que fazer com ela, ou como nomeá-la. Prefiro falar no 0 por todas as associações matemáticas que tive a oportunidade de fazer quando escrevia minha tese de doutorado, defendida na USP em 1985, “Pensando o Pensar com Pensamentos de W. R. Bion”, e publicada como “Pensando o Pensar: uma Introdução a W. R. Bion”.

Naquela época Bion ainda era um tabú, suas palavras muito citadas mas sem interpretação, associação ou crítica. Curioso que ele tenha gerado esse clima, quando sua intenção consciente era exatamente o contrário, que as pessoas pudessem ler e esquecer (tornar inconsciente) deixando aflorar suas próprias transformações. Perguntaram-me na defesa se isso não estava implícito no meu título: só se pode pensar Bion com os pensamentos dele. Respondi que entendia que só se pode pensar um autor com os pensamentos dele, daí as citações. Mas pensar um pensamento, próprio ou alheio, significa ir além, trabalhá-lo de seu próprio ponto de vista, suas associações pessoais e livres, transformando-o. E aí temos outro conceito importante, o de transformações, que não parece que tenha sido trabalhado o suficiente.

Com este site convido-o a considerar alguns conceitos de Bion apresentados de meu relativo ponto de vista, esperando despertar motivação para pensar o autor. Afinal, se persistir o respeito ou a dificuldade de pensar Bion, sempre haverá a facilidade de pensar as transformações de Maria Emília, e daí criar as próprias. Esteja à vontade, o site é seu. 

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